Todos os anos, quando chega o final do verão, há um momento em que tudo muda na Quinta das Murgas.
Depois de meses a acompanhar a vinha, observar o tempo, provar bagos e esperar pelo equilíbrio certo entre maturação, acidez e frescura, chega finalmente a vindima. É o momento em que aquilo que a natureza construiu ao longo de um ano começa a transformar-se em vinho.
Na Quinta das Murgas, em Bucelas, uma parte importante desse trabalho continua a ser feita da forma mais simples e antiga: à mão.
Não porque seja a forma mais rápida — não é. Nem porque seja a mais fácil. Mas porque, em determinadas parcelas e para determinados vinhos, acreditamos que é a melhor forma de respeitar a uva que chega à adega.
A vindima começa muito antes de cortar o primeiro cacho
É fácil imaginar a vindima como algumas semanas intensas em que uma equipa entra na vinha com tesouras e caixas. Na realidade, a decisão mais importante acontece antes disso: quando vindimar?
Na vinha, alguns dias podem fazer uma diferença enorme.
Ao longo das semanas que antecedem a vindima acompanhamos a evolução das uvas, provamos os bagos e analisamos a maturação. Procuramos o momento em que existe o equilíbrio que queremos para cada vinho.
Em Bucelas, onde o Arinto tem um papel central, preservar a acidez natural e a frescura da uva é particularmente importante.
Vindimar demasiado cedo ou demasiado tarde pode mudar completamente o perfil de um vinho. Por isso, mais do que seguir uma data no calendário, tentamos ouvir aquilo que cada parcela nos diz.
Porque fazemos vindima manual?
A grande vantagem da vindima manual é bastante simples: permite-nos tratar cada cacho individualmente.
Quando alguém corta um cacho à mão consegue observar o seu estado, identificar uvas que não queremos aproveitar e fazer uma primeira seleção ainda dentro da própria vinha.
As uvas são depois colocadas cuidadosamente em caixas e transportadas para a adega, procurando que cheguem nas melhores condições possíveis.
Parece um detalhe, mas para nós não é.
Quanto melhor for a matéria-prima que entra na adega, menos precisamos de interferir depois.
É uma filosofia de trabalho que tentamos seguir em toda a produção da Quinta das Murgas: o vinho começa na vinha, não na adega.
Nem todas as uvas são iguais
Mesmo dentro da mesma quinta existem diferenças.
A exposição solar, o solo, a idade das videiras, a disponibilidade de água ou simplesmente a localização de uma parcela podem fazer com que duas zonas relativamente próximas produzam uvas com características diferentes.
É por isso que durante a vindima não olhamos para a propriedade como um único bloco.
Temos parcelas de Arinto, Esgana Cão e Touriga Franca e Aragonez além de uma vinha centenária onde convivem diferentes castas. Cada uma tem o seu ritmo e exige decisões próprias.
Há parcelas que podem estar prontas enquanto outras precisam de esperar mais alguns dias.
A vindima manual dá-nos precisamente essa liberdade: entrar na vinha certa, no momento certo e colher apenas aquilo que queremos colher.
Há também algo profundamente humano na vindima
Quem já participou numa vindima sabe que existe um ambiente difícil de explicar a quem nunca esteve numa.
Os dias começam cedo. Há caixas a entrar e a sair da vinha, tesouras, tratores, conversas entre filas e inevitavelmente algum cansaço.
Na adega, o ritmo continua.
Chegam as uvas, os cachos são observados e selecionados, começa a prensagem e, pouco a pouco, aquilo que estava na vinha poucas horas antes inicia uma transformação que irá durar meses — e, em alguns casos, anos.
Durante algumas semanas, toda a quinta parece viver em função da uva.
É provavelmente o período mais exigente do ano, mas também aquele em que se sente de forma mais evidente que o vinho é um produto agrícola.
Antes de existir uma garrafa, um rótulo ou uma prova de vinhos, houve pessoas numa vinha a cortar cachos um a um.
E a vindima mecânica?
A vindima mecânica é hoje uma ferramenta extremamente importante na viticultura e pode fazer todo o sentido em determinadas parcelas e circunstâncias.
É rápida, eficiente e permite colher grandes áreas num período muito curto — algo particularmente relevante quando as condições meteorológicas obrigam a tomar decisões rapidamente.
Por isso, não vemos a vindima manual e a vindima mecânica como dois mundos necessariamente opostos.
A questão é perceber qual é a ferramenta mais adequada para cada vinha e para o vinho que queremos produzir.
Na Quinta das Murgas, quando procuramos uma seleção mais cuidada da uva ou trabalhamos parcelas que consideramos particularmente especiais, continuamos a privilegiar a colheita manual.
Da vinha para a adega
Depois de colhida, começa uma nova etapa.
Dependendo do vinho que queremos produzir, as uvas podem seguir caminhos diferentes. Podemos trabalhar com prensagem de cacho inteiro, fazer seleção antes da prensagem ou utilizar diferentes recipientes e métodos durante a fermentação e o estágio.
Mas há uma ideia que permanece constante: tentar preservar aquilo que a vinha nos deu.
Para nós, fazer vinho não significa tentar corrigir tudo na adega. Significa chegar à adega com uvas suficientemente boas para que possamos intervir o mínimo necessário e deixar que cada vinho encontre a sua identidade.
É também por isso que damos tanta importância à vindima.
Um ano inteiro concentrado em poucas semanas
Talvez seja essa a melhor forma de explicar o que representa a vindima na Quinta das Murgas.
Durante meses podámos, acompanhámos o crescimento da vinha, vimos nascer os primeiros rebentos, observámos a floração e acompanhámos os cachos enquanto amadureciam.
Depois chega setembro e grande parte desse trabalho concentra-se em algumas semanas.
Há decisões que não podem ser adiadas. Há dias que começam cedo e acabam tarde. Há planos que mudam porque choveu, porque uma parcela amadureceu mais depressa ou simplesmente porque a vinha decidiu seguir um ritmo diferente daquele que tínhamos imaginado.
É agricultura. E essa imprevisibilidade também faz parte daquilo que gostamos neste trabalho.
Porque continuamos, então, a vindimar à mão?
Porque nos permite estar mais próximos da vinha.
Porque podemos selecionar.
Porque podemos respeitar o ritmo de cada parcela.
E porque acreditamos que, em determinados vinhos, essa atenção se sente mais tarde dentro da garrafa.
Quando alguém abre um vinho da Quinta das Murgas, vê apenas o resultado final. Mas por trás dessa garrafa existe um ano inteiro de trabalho — e, durante a vindima, muitas vezes existe também alguém que percorreu uma linha de vinha e escolheu aquele cacho com as próprias mãos.
No fundo, é isso que procuramos fazer na Quinta das Murgas, em Bucelas: produzir vinhos que contem o lugar de onde vêm.
E essa história começa sempre na vinha.