Porque dois vinhos da mesma casta podem saber completamente diferentes

É uma das perguntas mais comuns de quem começa a explorar vinho com mais curiosidade:
Se dois vinhos são feitos da mesma casta, porque é que sabem tão diferentes?

A resposta está longe de ser simples, e é precisamente isso que torna o vinho tão interessante.
A casta é importante, claro. Mas é apenas uma parte da história.

A casta é o ponto de partida, não o resultado final

Pensar que uma casta define o sabor de um vinho é como achar que um ingrediente define um prato.
Ajuda, mas não chega.

A mesma uva pode dar origem a vinhos leves ou intensos, tensos ou redondos, frescos ou maduros.
O que muda? Quase tudo à volta da uva.

O terroir: onde tudo começa

No mundo do vinho, o termo terroir aparece muitas vezes, e com razão.

Terroir é a combinação de:

  • solo

  • clima

  • exposição solar

  • altitude

  • e interação da vinha com o lugar

Um solo calcário tende a dar vinhos mais tensos e minerais.
Solos argilosos podem resultar em vinhos mais cheios e estruturados.
Solos pobres obrigam a videira a lutar, e dessa luta nasce concentração e carácter.

Mesmo dentro da mesma região, pequenas diferenças de solo criam vinhos completamente distintos.

A exposição solar muda o perfil do vinho

Duas vinhas da mesma casta podem receber sol de forma muito diferente.

Uma vinha mais exposta ao calor amadurece mais rápido.
Outra, com noites mais frescas, preserva acidez e frescura.

O resultado?
Vinhos com a mesma uva, mas com equilíbrios e personalidades opostas.

O ano da colheita nunca se repete

No vinho, o ano conta. E conta muito.

Mais chuva ou menos chuva.
Ondas de calor.
Primaveras difíceis.
Vindimas precoces ou tardias.

Cada colheita deixa a sua marca.
Por isso, mesmo o mesmo produtor, na mesma vinha, nunca faz exatamente o mesmo vinho duas vezes.

As decisões do produtor fazem a diferença

Aqui entra a mão humana.

Quando colher.
Como fermentar.
Quanto extrair.
Quanto tempo deixar o vinho em contacto com as películas.
Usar madeira, ou não usar.

São decisões que não aparecem no rótulo, mas aparecem claramente no copo.

Muitas vezes, a identidade de um vinho está mais nas decisões que não foram tomadas do que nas que foram.

Porque não existem dois vinhos verdadeiramente iguais

Mesmo com a mesma casta, no mesmo local, em anos diferentes, o vinho muda.
E isso não é um defeito, é a essência do vinho.

O vinho não é um produto padronizado.
É um reflexo de um momento específico no tempo.

Quando percebemos isso, deixamos de procurar “o sabor certo” e começamos a apreciar a história que o vinho está a contar.

No fim, é isso que torna o vinho especial

Se todos os vinhos da mesma casta soubessem igual, o vinho seria previsível.
E o previsível raramente emociona.

O vinho existe para mostrar diferenças, não para as esconder.
E é por isso que continuamos a voltar ao copo, curiosos, atentos, disponíveis.

Na Quinta das Murgas, é exatamente isso que procuramos: vinhos que refletem o lugar, o ano e as escolhas feitas, sem máscaras.

Porque no vinho, como na vida, é a diferença que fica na memoria.

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